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O PORTAL DE RADYR GONÇALVES
As letras fazem a festa na pena de Radyr Gonçalves (Dolores Caminha, publicitária)

Arquivo: Dezembro 2008

19/12/2008 GMT 1

CONTO PEQUENO DE UM POEMA MORTO

sappoexpresso @ 03:27


Era uma vez um poema
Que em meio a um dilema
Morreu.
Não sei de quê
Não sei por quê
Mas morreu.
Não se esticou numa prosa
Nem imitou a semente viçosa
Simplesmente feneceu...
Morreu.
Não sei de quê
Não sei por quê
Só sei que morreu.

Radyr Gonçalves
Copyright 2008
04 de dezembro

 
Conheça o UNIVERSO DO BEM
www.universodobem.nireblog.com

PRECONCEITO

sappoexpresso @ 03:25


Preconceito contra negro
Cigano
Sotaque baiano
Preconceito contra gordo
Contra magro e corintiano
Contra crente, católico, macumbeiro...
Preconceito contra gostos ditos esquisitos
Contra o reggae, o rock, o pop...
Preconceito contra o escondido
O aparecido, contra gay, lésbica, prostitutas e outras sementes...
Contra baixos, contra loiras, contra índios, contra mancos...
Cegos, mudos e aleijados...
Parece regressão, daqui a pouco voltamos à idade da pedra...
Daí teremos preconceito contra o mais ou menos barbudo...
O ser humano inventa de tudo pra ser infeliz.

Radyr Gonçalves
Copyright 2008

O FIM DA SAUDADE

sappoexpresso @ 03:24
 
Me abraçou como a mãe afaga o filho
E me deitou no seu ventre virgem
Não disse nada, nadinha...
Ficou calada, caladinha...
Depois cantou baixinho ao meu ouvido
E a canção dizia da saudade fria que quase lhe arrancava o seio...
Dali por diante não mais saiu de mim
Não mais.

Radyr Gonçalves
Copyright 2008
04 de dezembro

 

CANÇÃO DE AÇO

sappoexpresso @ 03:23
 
O amor caiu no chão
Não se espatifou
O amor se metalizou
Trincou o chão de mármore
Não cabe ao amor se despedaçar
Cabe ao amor se alicerçar, firme, duro...
Cabe ao amor caber entre dois...
Esse é o papel do amor...
Ser aço no nosso interior.

Radyr Gonçalves

CANÇÃO DE CRISTAL

sappoexpresso @ 03:19

 

A taça transborda sob a mesa vazia
Falta alguém, meu bem!
Falta ela, pele dourada, alva, cabelos escuros...
Mas é momento de calar
De deixar a taça transbordar
De deixar a acaso prover o destino
É hora de caladinho, caladinho...
Assistir o espetáculo do vinho bailando na taça de cristal solitária.

Radyr Gonçalves
Copyright 2008
03 de dezembro

MÚSICA DA NOITE QUENTE

sappoexpresso @ 03:18
 
Tira a roupa, dorme nua
Como a lua, despida...
Tira os véus da vergonha
Como Adão e Eva se exponha...
Ao natural nu desvendado, se entregue...
Tire a roupa, dorme nua...
Inocente como as violetas
Se agasalhe nos braços da noite quente...
E se dispa de si, nua como ao mundo veio...
Nua, vestida de pele, tão somente.

Radyr Gonçalves
Todos os direitos reservados

A FUGA DO AMOR

sappoexpresso @ 03:16
O amor se foi pela janela
O amor de quintais e quintais saiu a pular os oitões
O amor não viu as margaridas, as violetas, as trepadeiras cor de rosa...
O amor seguiu sua rota torta, vazio e sem cor...
A falta do amor do amor é branco e preto...
O amor nem acenou quando foi
Saiu como se foge, medroso e melancólico...
O amor teve medo de amar...
O amor se deparou com o mar da solidão...
O amor está só...

Vem pra mim amor...
E se enlaça sem medo no teu amado...
Nesta noite quente se vista de lua se mostre nua em teus sentimentos...
Dá-me a mão amor, não foge não...
Quero tua boca, teu hálito, quero travar-me no teu corpo livre...
Teu corpo é meu amor... Veja quantas flores te espera...

O amor foi pelas ruas
Chegou em casa e se trancou no quarto
Revirou as gavetas, leu as cartas, revirou a mente, e lembrou:
O amor precisa de amor...
O amor precisa ser amado.

Vem pra mim amor...
E se enlaça sem medo, desvenda teus segredos de mulher...
E sem medo me abraça, num abraço sem fim.


Radyr Gonçalves
Copyright 2008
Todos os direitos reservados


 

 

ÊXODO CIGANO

sappoexpresso @ 03:10

 

Leia a minha mão
Mostre o meu destino
Decifre as minhas linhas
Recite meu futuro
Mostre-me a rota e siga seu rumo
Aqui, ali, alhurdes...
Aqui e acolá, e depois siga seu rumo a lugar algum...

Leia minha mão
Desvenda meu céu
Me diga que a mel no meu caminho amargo
Vaticine meu tempo
Projete meu universo
Me faça tecer novos planos...

Me ensine a voar
Me erga de forma mágica
Num abacadabra me abra a porta
Do invisível, me mostre o portal além das vistas...
Me liberte com um toque...
E siga seu caminho com sorte...
Siga seu rumo
Aqui, ali, alhurdes...
Aqui e acolá e depois siga seu rumo a lugar nenhum.

                        Especialmente para Roseli Munhoz

Radyr Gonçalves
Copyright 2008

Todos os direitos reservados

O VERDADEIRO AMOR

sappoexpresso @ 03:07
 
O verdadeiro o amor guarda o perfume
O verdadeiro amor guarda o silencio da declaração
O verdadeiro amor nem precisa se declarar
O verdadeiro amor brilha como o sol
Como o sol de Maria, de Francisco, de Homero, de João e de Quintino...
O verdadeiro amor é de menino
Que ainda jovem sonha de boca aberta despercebido da lida
Que ainda menino tece na mente o sonho de dois...

O perfume dela
O abraço dela
O ciúmes dela
O corpo dela enlaçado

O verdadeiro amor é sofredor
O verdadeiro amor para o tempo
O verdadeiro amor para o vento
O verdadeiro amor acelera o nada
O verdadeiro o amor constrói o tudo
Como o tudo que Zefinha, Toinho, Bastiana e Crispino outrora construíram:
A casa branca de varandas
Bacuris a correr nos quintais
Arvores, livros meninos e coisa e mais...
O amor tem o poder de construir...

O verdadeiro amor é de menino
Que ainda jovem sonha de boca aberta despercebido da lida
Que ainda menino tece na mente o sonho de dois...

O perfume dela
O abraço dela
O ciúmes dela
O corpo dela enlaçado no meu corpo.

Radyr Gonçalves
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All Rights Reserveds
 

O ANJO DO DESTINO

sappoexpresso @ 02:59
 
Anjo do destino
Tu resistes
Eu insisto: Dá-me a lua dos meus sonhos...
Dá-me a maçã que peço, a pele que almejo, o sorriso que ilumina os dias...

Anjo do destino
Tu te escondes
Eu te procuro...
Brinde-me com o meu querer
Conceda-me tal benção
Daí-me o que suplico; a pele anjo do meu ser amado, o corpo virgem, a doçura da alma de quem tanto amo...

Anjo do destino...
Dá-me a mulher que é o prisma do meu universo
Que é o universo do meu universo
Nada mais te peço, senão o perfume da alma dela pelos meus dias de eternidade...

Eis minha suplica ao anjo do destino...
Espero positivas respostas.

Radyr Gonçalves

O SILÊNCIO CANTADO

sappoexpresso @ 02:58
 
Cante em silêncio
E sentiras cada nota da canção falar alto
Sentiras tu´ alma além do asfalto que calça os teus pés
Cante em silêncio diariamente
E sentiras que teu ser cresce uniformemente
E sentiras a atmosfera do ambiente celeste
O silêncio é a oração perfeitamente cantada
É o sinal de Deus se aproximando
É quando toda calma se instala no ser
No silêncio toda mentira se desfaz
Todas as trevas ganham o sol próprio
Toda lágrima se cala no silencio
No silêncio a sabedoria perdura
A paz reside no oceano do silêncio
Todo o universo trabalha na mecânica do silêncio
E no silêncio são criadas as mais raras obras
No silêncio nosso livro se abre
No silêncio a guerra se abate
O orgulho se destrona
A humildade floresce
A fé se alicerça
A dor se alivia
O faminto se regala
O sedento se farta
O nu se veste de luz
O sem rumo encontra a caminho
O abatido encontra forças
O doente encontra o bálsamo
O solitário encontra a mais doce companhia no silêncio
Pois o silêncio em sua plenitude, deveras, é Deus presente.

Radyr Gonçalves
Copyright
All Right Reserved

 
 
 

SOB A LUZ AZUL DO LUAR

sappoexpresso @ 02:54
 
Teus seios sob a luz azul da lua
Seminua, e eu desejoso de ti
Querendo tua pele, mente, alma, corpo, vulva...
Invejo a lua que ti toca em chamas
Que te envolve lábios, seios, ventre, via corpo a fora...
Atenho-me ao vulcão é o teu divino corpo...

Teus seios sob a lua azul da lua
Despida, despida de roupa, de alma, de pudor...
Plenamente entregue, desbravo cada pétala do teu paraíso úmido...
Deito-me, embrenho-me no teu corpo doador...
Leva-me ao ninho de gozo, me exponho a escravidão da carne...
Roubo-te do olhar vicioso do luar azul...

Teus seios sob a luz azul do luar
E eu perdido no labirinto das tuas pernas, no suor perfume do teu gozo exposto...
Anseio tê-la pelas luas do sempre
Anseio tua pele, tua boca, teu desejo cor de vinho...
Anseio pelos meus toques ávidos tirando peça por peça das vestes que te veste...
Quero teu seio mel, teu lírio, tua fenda intima, quero me agasalhar e me doar eternamente num orgasmo lírico.

Radyr Gonçalves
Copyright 2008
28 de novembro
Todos os direitos reservados

SEMENTES DO AMOR

sappoexpresso @ 02:52

 

Sementes que mentem no sêmem do gozo em teu seio aberto
Na cama, estendidos, lameados pelo supra sumo do prazer
No chão os destroços das malhas amassadas
Na taça, o vinho dosado do nosso ato, do nosso néctar, do suor que nos une...
Sementes do teu ventre triangular, da tua alma ainda virgem de amor...

Arranjamos-nos em meio ao fogo do chão que se fez cama
Na cama construímos um universo de beijos e peles
Selados, escravos dos laços das pernas, das coxas petrificadas entre o tremular das nossas carnes ardentes...

No mar de cama e carnes
Navegamos corpo no corpo
Penetrados, rasgando elo por elo dos nossos castelos virgens...
Tu, entre o alvor da pele e o teu pedido de orgasmo...
Eu, entre o toque santo e o envolver malicioso das minhas mãos nas tuas entranhas nuas...

Entrego-me eterno, completo, sem vestes, visto-me de tu, do teu corpo nu.

Radyr Gonçalves
Copyright 2008
Todos os direitos reservados

Especial para Dhébora Linhikys e Mário de Castinho, também para Isabelyta Recom e Pedro Dias...

MOMENTO

sappoexpresso @ 02:50
 
Embrenho-me no teu terreno úmido
Me elevo ao céu deste paraíso molhado
De gozo pleno, dito orgasmo...
Da música sussurrante do teu gemido sentido...
É pele, corpo, suor...
São coxas entre coxas, pernas entre pernas...
Membros ativos, saltos, selvagens grunhidos...
É cama, chão, tapete...
É veste por veste jogada ao nada...
São mãos, pés, bocas, olhos e alma, voltados para um momento só:
O momento de amar.

Radyr Gonçalves
Copyright 2008
02 de dezembro

 

SER

sappoexpresso @ 02:47

 

SER, bem mais que TER...
SER é transcendente, imortal, divino...
SER é distinto, poderoso, grandioso, inefável...
SER é o estado maior da elevação.
SER se difere do TER por razões óbvias:
O TER se exauri.
O SER se eterniza.
O TER se enferruja e as traças corroem.
O SER é ouro extraterreno.
O SER não precisa de méritos e honras pra ser exaltar
O SER É. Simplesmente.
O TER é presunçoso, soberbo, pequeno e quaisquer vento o espalha.
O SER é concreto, manso, gentil e nenhum temporal o apavora.
Busquemos SER e não só TER...
Pois o TER amanhã pode ser passado.
E o SER sempre será presente, sempre.

 
Radyr Gonçalves
 
Copyright 2008
 
Todos os direitos reservados
 
 

NORMA, A NOIVA

sappoexpresso @ 02:45
 
Norma, sem regras, sem norma.
Enlouqueceu, graças a Deus só enlouqueceu, poderia ter sido pior...
Poderia está louca e grávida.
Poderia está louca e paraplégica.
Poderia está louca e pobre.
Poderia está louca e com outros tipos de mazelas.
Poderia está grávida, pois se meteu com um homem cafajeste que a abandonou no altar da igreja de São Sebastião...
Poderia está paraplégica, pois caiu da moto desse demônio chamado Araújo.
Poderia está pobre por que o meliante queria dar-lhe o golpe do tesouro...
Norma herdará dezenas de casas, fazendas, carros e uma fortuna em dinheiro...
Ainda ganha pensão.
Norma triste e louca...
Abandonada no altar, agora vive a cantar:

´´A lua me levou o homem
Que amei, que amarei...
A lua me levou o homem
O homem que era meu bem´´...

Norma, casta, puríssima, como a mãezinha de Deus...
Não cedeu pro calhorda...
Norma educada nas rédeas das religiosas da escola do Bom Conselho...
Norma pura como a flor virgem da primavera de setembro...
Norma desmemoriada...
Norma sentenciada pelo destino fatídico da loucura..
Norma sem regras de consciência...
Não diz coisa com coisa...
Não fala fala com fala...
Não decora o seu papel de moça privilegiada pelo poder da riqueza...
De nada vale seu ouro
De nada vale seus vestidos de seda importada...
De nada vale suas pinturas famosas...
Suas relíquias, seu brasão de família imponente...
De nada vale sua beleza, seu porte europeu...
De nada vale suas habilidades se estas estão embutidas no intimo da sua alma...
Norma foi sentenciada pelo destino...
Norma fora abandonada, fora mal amada...
As flores que recebia eram flores do interesse...
Os chocolates caros que recebia eram, amiúde, carregados de intenções vantajosas...
Norma bebeu o cálice da solidão...
Enlouqueceu... empobreceu de mente, emagreceu de corpo, está pálida...
De alma falida, de cara abatida, sozinha no mundo com sua riqueza que não lhe serve de escudo. Não serve de nada, absolutamente.

 
Um texto de Radyr Gonçalves
 

JACKSON, JACKELINE, KELLINO

sappoexpresso @ 02:41
Jackson, Jackeline, Kelinno, um sujeito só...
Bissexual, pelo menos na sua graça de nascença...
Homossexual no intervalo desta encarnação passada...
Existe encarnação? Sei lá!
Jackson, Jackeline, Kelinno só no sentindo mais solitário da palavra sozinho...
Perdeu pai, mãe, irmão, amigos – se é que um dia ele teve amigos - perdeu tudo, cada centavo de real que tinha...
Jackson, Jackeline, Kelinno não teve destino bonito...
Não foi doutor médico, nem doutor advogado...
Não foi orgulho, não foi intenso, não foi marcante...
Foi apenas um passante não cristão, não contado nem pelas estatísticas do IBGE...
Foi só um instante não contando...
Não teve estrela, não foi estrela, foi um tempo pequeno é só...
Era fresco, pederasta, veado, gay, homossexual, afeminado, figura do diabo, coitado...
Há quem julgue, há quem cale... Eu me calo...
Jackson, Jackeline, Kelinno
Homem, menino, mulher?
Quem sabe o que é?
Não tinha sexo definido na alma
Não tinha calma
Se prendeu – propositalmente? – na ilha das drogas...
E não viu muitos sois das manhãs de esperança...
Não leu Drummond, não ouviu Bach – ele não sabe o que perdeu, meu DEUS! Bach, a música de Bach o teria acalmado?
Jackson, Jackeline, Kelinno
Não tinha respostas
Mas também não tinha perguntas
Não tinha uma roupa especial
Não tinha uma data especial
Não tinha um diário rosa de bicha
Era apenas um passante
Não teve hora pra comer
Não tinha hora pra dormir
Não tinha hora pra acordar...
Ele mal dormia, ele mal acordava...
Ele mal sonhava... Não soube sonhar!
Não tinha amantes...
Não tinha rotina
Só vicio...
Pobre do homem que se perde nesta trilha
Rico homem que encontra a si mesmo...
Não tinha dinheiro...
Não era festeiro...
Quem o convidaria para uma festa?
Não tinha tempo, pois o tempo não o tinha na sua agenda...
Não tinha datas
Anos se foram, e anos vieram...
10, 20, 30 anos na ampulheta do destino se esvaíram no fosso...
Coitado do homem sem sonho...
Aventurado o homem que se veste de esperança...
Jackson, Jackeline, Kelinno
Gay, homem, menino...
Sem ter quem o notasse....
Sem feitos notáveis...
Sem feito algum...
Vagueou no azul miúdo deste universo do PAI
E partiu não sei se em paz para a dimensão do bem mais...

Jackson, Jackeline, Kelinno
Não deixou filhos, nem livros, nem frase célebre, nem lembranças...
Não deixou fotos, nem deixou gestos...
Não deixou marcas, nem número de CPF...
Não deixou herança alguma, nem divida no SERASA...

Jackson, Jackeline, Kelinno
Foi apenas um passante não pensante que segue sua jornada no além da rota palpável...

Jackson, Jackeline, Kelinno
Gay, homem, mulher , menino?
Quem sabe?

Radyr Gonçalves

 
 

TEREZA

sappoexpresso @ 02:39
 
Tereza faz ponto na engenheiro Roberto Freire.
Tereza é puta de primeira, mas custa barato ter Tereza...
Tereza é morena, das ancas alargadas, da bunda redonda e bem empinada...
Tereza tem seios tamanho da lua, e anda tão nua quanto a brisa da praia...
Custa alguns reais, nada que ninguém possa ter...
Mas pra sair com Tereza, não basta ter alguns reais, tem que ser gringo, tem que ser lindo, segundo ela, tem que ser loiro de olhos coloridos...
Não pode ser negro não...
Não pode ter calo na mão...
Tereza é preta e preconceituosa... Quando nova um negro usou e abusou da negra Tereza que de negro se enojou....
Tereza sai de casa, no Passo da Pátria, dizendo que vai trabalhar...
E vai mesmo...
Dá um trabalho lidar com corpos desconhecidos...
Com bocas desconhecidas...
Com falsos amores...
Tereza acha que faz um bem social aos desamparados branquelos que querem bem mais que carinho, querem corpos como o dela...
Querem amor pago e barato...
Querem o impagável e por isso tentam pagar...
Ninguém nunca amou Tereza...
Ninguém nunca há de amar...
Ninguém nunca dará um nome à preta que só sabe se dá por migalhas caras...
Nunca terá uma casa com quintal, meninos, marido e planos de fim de semana...
Meninos pode até ter, família nunca...
Tereza nunca soube o que é família; Não sabe quem é o pai - cisma do homem do gás – a mãe era puta, tal qual ela, porem menos bela, era maneta, vendia-se por um real, nada mais.
Tereza mora com a tia que não bate bem das idéias...
Não tem noção do tempo à velha Cilene, que pensa que Tereza trabalha na loja de cimento – não sei por que ela pensa assim -.
Tereza é boa de cama...
Tereza se dá bem na ´´profissão de Raabe´´...
Tereza tem 20 anos contados,
Tereza tem anos à frente de falta de expectativa...
Tereza tem nada mais que do que nada...
Tereza cheira a perfume de griffe
Tereza acha que fede...
Tereza não sente o perfume na pele...
Tereza sente o odor da alma..,
Tereza sabe que a engenheiro Roberto Freire é fétida...
Ela sabe que as famílias começam a se destroçar ali:
Quando o bancário Demetrios, homem bem apessoado e casado se entrega aos deleites nodosos com o afeminado Kelly Day.
Quando o seu Zé Roberto, homem de mais dos 70, se alimenta do sexo da menina Dayana que com menos de 14 já se destroça numa cama...
Tereza sabe da ilegalidade dos seus atos...
Sabe que se chama pecado seu ato...
Sabe que sua alma pesa...
Sabe que sua consciência clama...
Sabe que seus caminhos são tortos...
Tereza sabe que a sua canção chama-se canção da infelicidade...
Tereza sabe que ninguém o ama...
Que ninguém o chamará de querida...
Que nunca receberá flores...
Que nunca será levada ao prazer por prazer de alguém tê-la...
Tereza nunca será esperada...
Nunca será questionada...
Nunca ninguém a de arder de ciúmes da preta...
Tereza acena e os homens se estendem ao seu corpo doador...
Tereza acena um carinho pós cama e recebe notas de pagamentos a qual ela chama de fragmentos de carinho.

Radyr Gonçalves
Copyright 2008
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ASTOLFO

sappoexpresso @ 02:37
 
Astolfo é eletricista
Puxa fio
Emenda fio
Estica fio
Enrola, desenrola fio...
Astolfo está com os nervos a fio...
Astolfo anda desconfiado que anda levando fio...
Astolfo anda desconfiado de Marilda
Astolfo trabalha 12 horas por dia...
Astolfo trabalha de sol a sol.
Astolfo se enfiou numa desconfiança grenguenada
Astolfo sente que tá sendo passado pra trás...
Quando chega às 8 horas Marilda não está em casa...
E logo Marilda que não trabalha fora:
Que não tem parente perto,
Que não conhece a vizinhança,
Que não tem bate que bate com amigas,
Astolfo vem assuntando essas saídas.
Humm... Essas saídas cheiram a fios queimados...
Essas saídas estão rendendo um porre danado, ele sofre calado...
Essas saídas andam fazendo Astolfo perder seu resto de cabelos grisalhos...
Eu sei que Marilda trepa com José, Juaquim, com Tião, com Zelão e com Astolfo...
Parece incomum, mas existe outro Astolfo – esse carteiro – esse um neguinho fuleiro que anda a lançar pilhérias às mulheres que passam... Outro Astolfo.
Astolfo, o de Marilda, é gente boa...
É gente humilde
Que paga imposto
Que não compra a crédito...
Que não deve ao banco, nem ao agiota...
Que dá o dizimo, que usa as botas do trabalho pra passear por não sobrar dinheiro pra comprar um sapato de carregação...
Astolfo não sabe que é corno...
Mais algo o diz..,
Eu queria dizer...
Mais dizer pra quê?
Pra fazer o pobre infeliz sofrer antes da hora?
Espero que ele descubra só...
Espero que ele note que os decotes de Marilda é pro moço lá da esquina que ainda não provou do fruto que por lei divina e organizada pertence a ele, o eletricista...
E quando ele descobrir...
Vai chorar, vai chorar...
E quando cair na real...
Vai ser mal, vai se mau?
Ele vai beber, ele vai sofrer...
Ele vai sentir o choque maior
Ele vai querer se penitenciar
Ele vai pensar que não é muito bom...
Tudo que ele ganha pra Marina dá...
Tudo que ganha é só pra comprar perfumes, roupas, tiaras e apetrechos para enfeitar a bela morena para os outros usar...
Astolfo não merece essa página...
Astolfo merece mulher melhor
Astolfo merece fidelidade
Asfolfo merece família...
Marina sai logo cedo, antes da boca da noite se escancarar, e vai se encontrar com os amantes nas cantinas ou nas mesas de bar... De lá sai pros motéis, com negros, brancos, fétidos, cheirosos, velhos e jovens...
Apenas por prazer de trair...
Apenas por prazer de está com o outro homem que ela julgue não merecer...
Marina trai Astolfo por que acha que ele é bom demais pra ela...
Que ele é fiel demais a ela...
Marina sabe que ele não olha outra mulher...
Marina sabe que ele paga as contas...
Marina sabe que ele é zeloso...
Marina sabe que ele é romântico...
Marina sabe que mesmo quando ele bebe, ele não é grosso...
Astolfo tem boas maneiras
Tem educação de berço...
Astolfo é homem pra se arranjar com qualquer moça de boa família...
Marina não suporta a perfeição de Astolfo...
Marina não suporta a forma com que Astolfo se dedica...
E Astolfo ainda é boa pinta...
Marina trai por que Astolfo é bom demais... E ela se sente imerecida...
Não dá pra entender?
Não dá engolir?
Por que não gostar de um homem assim?
Ela gosta demais...
Ela só se acha e sempre se achou que não merecia o que ganhou e se penitencia pecando ao invés de rezando...
Não dá pra entender...
Não dá pra engolir...
Mas é assim, Astolfo é corno por ser bom...
Marilda o chifra por ser, pra alguns, sem vergonha...
Para mim, por fatores psicológicos...
Para o carteiro, pelo dom de ser puta...
Para ela, por graça imerecida...

Astolfo é eletricista
Puxa fio
Emenda fio
Estica fio
Enrola, desenrola fio...
Astolfo está sendo é enrolado por Marilda... Quando irá descobrir?

Um texto de Radyr Gonçalves

A DOR DE MARIA

sappoexpresso @ 02:34
 
Mordeu os beiços, sacudiu o cabelo e desceu a ladeira
Era só lagrima de dor
Era só adeus de partida
Partido o coração em miúdos
Se deu por morta naquela noite sem brilho...

Lá se foi Maria
Com seu amor preso no peito
Seu amor o mar levou
Decerto, não mais o devolveria
Era só lagrima de sangue
Era só ferida aberta
Era só canção dorida

Deixou cair às alianças
E de mãos vazias seguiu
Rumo à solidão do quarto só
Rumo à vastidão da solidão...

Deixou cair lagrima por lagrima
Fez do quarto um mar pra lembrar
Que o mar levou o amado
Num açoite certo e covarde
Deixou a noite passar
E pela manhã percebeu que outra manhã nascera
E já não havia uma gota de lagrima
Já não havia mais oceano algum.

Radyr Gonçalves
15 de novembro de 2008

ENTRE ESPAÇOS

sappoexpresso @ 02:33
 
Entre as andorinhas e as curujas, o casal de pombos.
Entre o leite e o café, o açúcar.
Entre o poema e a novela, a moçinha.
Entre o trilho do trem e o mar da nau, a sereia solitária.
Entre os anjos e os demônios, o corpo dela.
Entre a maçã e o vinho, a moça ébria.
Entre o ponto de partida e o de chegada, a caminhada.
Entre um e outro, a outra.
Entre o dileto e o indiscreto, os dejetos.
Entre o gelo e o fogo, a cama.
Entre o véu transparente e o muro de aço, a alma.
Entre um pé e outro, o passo.
Entre a galinha e a águia, as alturas.
Entre o mar e o céu, um jardim feito de sol e mel.
Entre o vento e o toque, a pele.
Entre um desejo e outro, o sexo.
Entre o quarto e o coração, o vácuo.
Entre eu e ela, a incerteza das tardes eternas, e só.

Radyr Gonçalves

Copyright 2008
Todos os direitos reservados

sappoexpresso @ 02:28
 
Só é está ilhado embrulhado em solidão
Que é papel dos mais caros
Presente de quem tem alguma sede
Quem tem solidão tem sede
Quem tem solidão tem fome
Quem tem solidão escreve poemas sem nome

Só é cantar o vácuo
É recitar o lírico olhando-se no espelho
É rezar em pé, de joelho, é rezar de qualquer jeito maneira
Pedindo a Deus e rogando ao diabo
Que rompa-se o silencio ferido...

Toda solidão é silenciosa
Toda solidão é mística
Toda solidão mora só
Toda solidão é quieta.

Só é cantar ciciando o nada
É criar um quadro...
A vantagem da solidão é que nela você pode esconder um intimo segredo e deixá-lo aberto... Pode deixar tudo fora das gavetas, tudo desarrumado, inda assim, o segredo não ventilará; não dará com a língua no céu da boca...
Outra vantagem da solidão é que com ela você pode ficar nu sem os olhos curiosos dos que adentram o quarto apenas para vislumbrar nossa vergonha vermelha...
Solidão e o ficar nu de nós mesmos.

Radyr Gonçalves

Copyright 2007
Todos os direitos reservados
 
 

AUSÊNCIA

sappoexpresso @ 02:24

  

O desejo que há em mim me apavora
Quero teu corpo, tua pele, tua alma
Quero teu beijo, teu afago, teu calor, teu travesseiro...
Sei que nada disso terei, por isso partirei...
Partirei exausto de trilhar o amor não amado...
De vaguear pelas noites procurando teus braços...
Quando a dor me açoitar na madrugada fria
Vou sentir sua voz me dizendo: TE AMO!
Vou lembrar das tuas sandices, das tuas loucuras de lua...
E vou me ater no teu seio quente e me aquecer no teu corpo...
Me esconderei em ti, e em ti somente provarei o amor na distancia...

Saibas, pois, que te possuo a noite quando a lua vem...
Saibas, pois, que o meu canto de lamento é teu também...
Saibas, pois, que és o fruto da minha vida...
E quando a madrugada me chamar ouvirei você me chamar...

Nunca mais eu serei o mesmo
Nunca mais eu passarei nesta estação
Nunca mais cantarei o amor
Pois, flor minha, me deixastes
E eu já morro de qualquer coisa entre o amor e os teus braços (...)
Morro de qualquer coisa que chamam de AUSÊNCIA.

Por RADYR GONÇALVES
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CAIXINHA DE GUARDADOS

sappoexpresso @ 02:20
 
Guarde numa caixinha cada beijo que eu te der
Guarde bem guardadinho onde ninguém possa encontrar
Guarde meu perfume, meu lenço, meu silencio, meu cantar...
Guarde o sol de mim, a lua de nós, guarde o céu nosso de cada dia...
Guarde meu deserto, meu ar seco, meu mormaço...
Guarde minha paz, minha guerra, meu cansaço...
Guarde meu ser intimo, meu toque suave, meu vinho...
Guarde minha lembrança, minhas fotografias, meus rascunhos de poesia...
Guarde o rei que a em mim (...) Guarde o pedinte, o suplicante, o implicante, guarde meu terno de vidro, guarde esse instante...
Guarde meu fruto no teu ventre, guarde o resto de mim... Guarde o desejo das noites, guarde aquela noite em especial...
Guarde o segredo da nossa história, guarde o retrato das quatro estações, a minha música preferida, guarde meu lema, meu tema, guarde minha voz em pedra.
Guarde minhas coleções de absurdos, meus erros, meu único acerto... guarde minhas senhas, minhas senhas são todas uma só, seu nome.
Guarde meu fogo, meu gelo, minhas brigas, meu leite, meus trejeitos, meu jeito, meu carinho de algodão.
Guarde meu diário, minha agenda, meu números, as cartas que me enviasse, guarde meu sal, meu doce, meu sabor...
Guarde meus gostos, meus discos antigos, meus antigos mimos, meus mimos novos, meus mimos mais secretos...
Guarde tudo na mesma caixinha onde você guardará meus beijos...
Cabe tudo lá, tenho certeza.

Um poema de Radyr Gonçalves

Escrito em maio de 2008
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