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O PORTAL DE RADYR GONÇALVES
As letras fazem a festa na pena de Radyr Gonçalves (Dolores Caminha, publicitária)

29/05/2008 GMT 1

Flores no jardim do tempo

sappoexpresso @ 20:49

rosasbrancas1.jpg

A vida é um fruto instantâneo. Lógo passa, como um cometa apressado. Não dá nem tempo de aprender muita coisa. Não dá nem tempo de nos profissionalizarmos. Tudo o que estudamos, tudo o que sabemos, se perde ante a soberania do tempo. Somos um bando de amadores.
O nosso tempo aqui na terra é miudinho, como um grão de areia que assiste o mar diante de uma praia deserta. Passamos lógo. Passamos com a nossa arrogância. Com nossa petulância besta. Com nossa vaidade e cuidados com coisas desnecessárias. Complicamos tanto. Passamos com passos largos. Deixamos tudo. Nossas opiniões. Nossas críticas. Nossa sigla política. Nosso brazão famíliar - isso se a sua família tem o tal brazão. Nossos óculos, se é que você que está lendo usa. Nossos diplomas. Nossas futilidades. Nossos livros e filmes preferidos. Nossos ternos, se homem. Saias, vestidos e tops, se mulher. Nossa crença religiosa. Nosso ateísmo. Nossas duvidas. Nossas dívidas. Nosso plano de um ano melhor. Nossa efêmera passagem neste mundo quando analizada no silêncio noturno nos fala fundo na alma. Perguntas e mais perguntas se amontoam quase pipocando nosso cortex com tantas setas e pontinhos de interrogação. Somos uma vela com uma pequena chama bailando ao vento. Um barco que vai partir. Um sopro a disposição do divino. Uma luz frágil feita de cristal finíssimo. Carne , ossos e sangue que se decompõem com o passar das eras. Somos pequenos e insuficientes diante da dinâmica da morte. Não sabemos o próximo minuto. O próximo minuto pode ser o minuto final. O resto de uma vida pode está no tique taquear dos últimos segundos. Somos plenamente limitados diante do tempo. E ele, o tempo, é um gigante que ruge desesperadamente. Implacável. Soberano. Ele nos faz deixar nossos jardins. Ele nos mostra aonde é o real lugar das flores. O tempo nos confere o terreno certo. Palmos de terra centimetros maior que o nosso corpo. Ali as flores ficam. Ali as flores murcham. Ali elas fenecem junto a inscrição do que um dia fomos - flores - no jardim passageiro do tempo.
Radyr Gonçalves
em 03 de abril de 2002

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